A Rua do Frigorífico


Dou sempre por mim a pensar o quão paradoxal é a circunstância de a Associação Protetora dos Pobres ficar situada numa rua com uma designação associada ao frio – a Rua do Frigorífico.
Desde criança que sempre achei curioso o nome daquela rua da nossa cidade. Talvez por isso, ainda hoje, aquela seja uma das poucas ruas secundárias do Funchal que conheço, apesar da sua discreta localização.
Os novos-pobres, os mais antigos ou os pobres-envergonhados misturam-se ali naquela rua, muitas vezes durante o dia e, em muitas outras (infelizmente cada vez mais), protegendo a identidade e dignidade diminuídas debaixo do anonimato da noite.
A cidade, a da festa e dos navios de cruzeiro, está toda iluminada, toda ela é um presépio, mas é ali, naquela rua com nome de frio, que há uma gambiarra com mais luz e colorido para quem, pelas mais diversas circunstâncias da vida, a perdeu ou acredita ser filho de um Deus-menor.
Só quem lhes distribui o pão, o prato de sopa ou a disponibilidade para ouvir os seus queixumes sem insuportáveis paternalismos, castigadoras censuras ou falsos moralismos conhece o seu rosto e a sua história de vida, procurando compreendê-la ou com ela se solidarizar.
Ouvi-los, reservando-se ao silêncio, é mesmo muitas vezes a mais reconfortante palavra e a prova maior de fraternidade que um homem pode prestar a outro homem, sem quaisquer diferenças de estatura.
A Rua do Frigorífico, por antítese, quase por ironia, é essa lareira que empresta por momentos algum calor aos seus corpos enregelados, alívio à sua fome ou um instante de esperança a tantas almas com tão pouca ou nenhuma.
Muitos (alguns mesmo ditos “católicos praticantes”) não lhes reconhecem sequer humanidade, olhando-os de través, ou lançando-lhes falsos olhares de compaixão, quando não mesmo expondo-os ao ridículo, ou responsabilizando-os gratuitamente pelo seu infortúnio, insultando-os com um “Vai mas é trabalhar!”, sobretudo em tempos de tenebroso desemprego, ou simplesmente excluindo-os com o gelo da sua indiferença ou suposta invulnerabilidade. Diz-se que a morte só existe para os outros. Para quem assim ajuiza, o mesmo se aplica à miséria e à exclusão. Falso pressuposto.
Disse uma vez Gabriel Garcia Marquez que “Só se olha para outro homem, de cima para baixo, para ajudá-lo a levantar-se do chão.”, mas não é esse o gesto de quem fala de solidariedade e de humanismo apenas quando é Natal, parecendo sempre bem dizê-lo à mesa do café ou em discursos politicamente corretos nos jornais e televisões.
Felizmente, há uma Rua do Frigorífico que, em lugar de representar frieza, simboliza calor e acolhimento para os que a vida deserdou ou dela se deserdaram, não cabendo aqui mais justos ou menos justos julgamentos éticos ou morais.
Infelizmente, por paradoxo, tal como comecei, há cada vez mais ruas da mesma natureza e com o mesmo propósito porque um Estado, que deveria ser Social, se tornou cada vez mais Privado. Privado dos seus princípios e privado de algumas das mais elementares e democráticas obrigações que deveria assegurar aos seus cidadãos, sobretudo aos que cairam no “empobrecimento lícito”, em nome de caprichos neoliberais, do sistema nervoso dos mercados, do egoísmo e da ganância de especuladores e agiotas da alta finança, preferindo salvar bancos e cofres cheios, que só alguns veem, nos seus natais de pés-de-barro, feiras de vaidades, presunçosos foguetórios, restos de caviar e despudorada desresponsabilização.

Roupinha nova para roto e esfarrapado

A proposta de composição do XX Governo Constitucional-Relâmpago apresentada pelo ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tinha na sua composição um vice-primeiro-ministro e quinze ministros, dos quais oito eram novos.  Um dado muito curioso é que apenas duas nomeações fugiam às fileiras partidárias. Terá sido esquecimento? Erro informático? Extravio de papelada de recomendação dos padrinhos? Vá-se lá saber…
Concretamente, apenas Rui Medeiros, constitucionalista, proposto para ministro da Modernização Administrativa, Ministério que os analistas nacionais afirmam ter sido criado para agradar ao PS, e Margarida Mano, ex-vice-reitora da Universidade de Coimbra, para ministra da Educação, fugiam às linhas partidárias.
Ouço dizer que “os números não mentem”, logo os acima referidos não poderiam ser mais claros, pelo menos para quem for minimamente alfabetizado. Até nem é preciso um “canudo” em economês nas universidades de equivalências conhecidas.
Não obstante, temos de conceder que há sempre outras leituras dos números, porventura só ao alcance de mentes esotéricas ou doutoradas em sofismas. Contra factos, diz-se, não há argumentos, mas, como sabemos, Portugal é um país de inventores, pelo que não falta gente criativa capaz de jurar a pés juntos que o Sol gira à volta da Terra ou, no limite da veia artística das máquinas partidárias, que Salazar era um dos três pastorinhos das aparições. Ora, para PSD e CDS, agora a dormir em camas separadas, (mas unha e carne quando se trata de maquilhar números, desmentir o indesmentível ou justificar o injustificável) os factos aqui registados, em típico politiquês ou fluente pinoquiês, só podem ser inverdades ou desvios da chamada “questão essencial”, (sim, essa mesmo) aquela que toda a gente sabe que não sabe.
Recentemente, a demissão anunciada de  António Lamas (que foi uma escolha de Passos Coelho), e a sua substituição por um ex-governante do PS, desencadearam as críticas do PSD. A título de exemplo, Sérgio Pimpão, coordenador do PSD na comissão de cultura, não demorou a acusar João Soares de “arrogância e prepotência”. Já Sérgio Azevedo, responsável na direção do grupo parlamentar pela área da cultura, optou por um registo irónico no Facebook. “Amigos para siempre”, escreveu em comentário à notícia sobre a proximidade de Summavielle com o ministro.
Carlos Abreu Amorim, deputado social-democrata foi ainda mais longe, na mesma rede social, nas alusões a um favorecimento político, admitindo mesmo cumplicidades maçónicas. Imagino-o, de dedo em riste, com o ar mais santificado e indignado, deste mundo e do outro, a trovejar: “O PS está a encharcar o Estado com os seus apaniguados e “Irmãos”, pacata e alegremente, sem qualquer pudor ou receio de condenação pública. No fundo, pensam, o Estado são “eles” e só foi feito para “eles” dele usufruírem como lhes apetecer”. Que Deus nos livre de presumir, em circunstância alguma, que Carlos Abreu Amorim seria capaz de “encharcar o Estado com os seus apaniguados e irmãos” ou um primo ou sobrinho que fosse! Dito por Carlos Abreu  Amorim ou pelos seus “apaniguados”/“irmãos” não é apenas uma espécie de argumento de autoridade, é uma verdadeira profissão de fé. Admiráveis estas “pérolas” litúrgicas, sobretudo quando proferidas por apoiantes do governo que se preparava para reinar, contando apenas (sublinhe-se “apenas”) com duas nomeações não pertencentes às suas fileiras partidárias. É muito  Portugal à frente da moral e da ética! Desconfio que, por estas e por outras, até o “Emplastro” ficaria melhor na fotografia.Resultado de imagem para fala o roto do esfarrapado
Porém, o PS, talvez para não destoar da “moda”, também fez questão de provar que segue bem de perto a doutrina do mesmo “Evangelho”, posto que o antigo presidente da Câmara e atual ministro da Cultura, João Soares, não deixou de achar absolutamente natural que Mário Barroso Soares, seu filho, 30 anos, licenciado em História, e com uma breve experiência profissional na área para que foi contratado (foi assistente de produção, durante menos de um ano, numa produtora de vídeo) ocupasse o apetecível cargo de assessor cultural na CML. É mais um daqueles especialistas, pagos a peso de ouro, com meses de experiência a “virar frangos”. E, ainda mais espantoso, é que o pai afiança não ter tido qualquer interferência na contratação, o que nos deixa todos absolutamente convencidos e aliviados. Ufa! Como se vê, é tudo feito na maior das transparências e sustentado numa palavra (parece que da realidade virtual) chamada meritocracia.
A este propósito permitimo-nos, por julgarmos apropriado e oportuno, tomar de empréstimo as palavras de Padre António Vieira, na sua inesgotável sabedoria: “Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem.”
Em suma, a gritaria de uns sobre partidarização e “jobs for the boys” é, no mínimo, anedótica, tendo em conta exemplos e práticas comuns. Porém, embora já não surpreenda ninguém, a réplica do modelo por quem antes o censurava não é, de todo, menos censurável. O nepotismo, entendamo-nos, venha ele de onde vier, foi, é e sempre será condenável. Recomenda-se, pois, roupinha nova para o roto e vestuário renovado para o esfarrapado. Só assim terão legitimidade para atirarem pedras aos telhados de vidro do vizinho sem que as mesmas, devolvidas, lhes façam igualmente em cacos os seus.

Dia Internacional disto… dia mundial daquilo

Há dias mundiais para todos os gostos, mas há alguns muito próximos do surreal, para não dizer mesmo do ridículo.
Ora vejamos algumas datas curiosas. No dia 1 de janeiro começamos o novo ano com o dia mundial da Paz. Porém, nem mesmo nesse dia há tréguas na barbárie e no ódio humanos.
A 6 de fevereiro temos outro dia mundial, daqueles que é um verdadeiro desafio ser capaz de conseguir ler sem rir, o Dia Europeu da Internet Segura. Como nos filmes, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
A 8 de março temos o Dia Internacional da Mulher, porventura inventado pelos machistas, pelos floristas ou pelos cobardes praticantes de violência doméstica. Quem as respeita, admira e ama não precisa de datas específicas para prová-lo.
A 2 de fevereiro comemora-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, data com uma designação algo infeliz, que me deixou a suspeita de que há aqui muito potencial para piadas do género “picante”. Já a 15 de março surge o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, todos os dias atropelado, contornado e violado, conforme provam os números da DECO.
21 de março é o Dia Mundial do Sono, o que me traz à retina conhecidos deputados virtuais, daqueles que fazem número no Parlamento, servindo apenas para bocejar, gritar “Apoiado”, “Muito bem! Muito bem!”, levantar-se para o voto, o cafezinho ou o chichi, para logo deixar-se cair nas “caminhas” a que chamam bancadas. Vá que também poderia perfeitamente ser comemorado a 27 de Março, Dia Mundial do Teatro e Dia Internacional do Circo. Atores e palhaços ricos não escasseiam por ali, salvaguardando-se, sublinho, algumas honrosas e muito respeitáveis exceções.
Continuando, a 3 de Maio temos o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, dia muito apropriado à realidade de países tão genuinamente democráticos como Angola, Venezuela, Rússia ou Coreia do Norte.
A 9 de Maio, curiosamente, celebra-se o Dia da Europa, aquela que atualmente  já só existe no papel ou nos países do Norte.
Já o 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, e esta é uma proposta minha, não é festejável por quem teve a “brilhante” e muito “patriótica” lembrança de deixar de comemorar o nosso 1 de dezembro, dia da Restauração da Independência nacional. Cristo ressuscitou, mas, atenção, não foi o único. Há por aí muito traidor Miguel de Vasconcelos ressuscitado. Que diriam, por exemplo, os franceses ou os americanos se lhes retirassem o privilégio e a honra de celebrarem a independência?
E como esquecer o 27 de Outubro, Dia Nacional da Desburocratização, talvez só assinalável em Marte…
A 13 de maio cai o Dia Internacional do Comércio Justo. É dia de Nossa Senhora de Fátima, logo é tudo uma questão de fé, que não de racionalidade.
A 4 de junho assinala-se o Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão, o que diz muito a pais broncos, pedófilos incuráveis e a muito sacerdote só de nome.
A 20 de junho temos o Dia Mundial dos Refugiados, que, dramaticamente, pelas piores razões e responsáveis, vai tendo lugar todos os dias.
A 8 de Setembro comemora-se o Dia Mundial da Alfabetização, não aplicável a “doutores” como o senhor Relvas ou a engenheiros com “licenciaturas” de fim de semana.
A 4 de outubro chega o Dia Mundial do Animal. Pergunto-me se será que se trata do Animal, homem ou mulher, que maltrata os bichinhos?
E que dizer de 16 de setembro –  Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozono?
Como preservar? Fácil! É só celebrar  o 22 de Setembro, Dia Europeu sem Carros, e resolve-se a questão num ai.
A 31 de outubro calha-nos o Dia Mundial da Poupança, dedicado sobretudo a banqueiros, agiotas e intocáveis empresários que deslocalizam as suas empresas e protegem-se de impostos em paraísos fiscais.
Finalmente, a 25 de novembro, vem chocar contra a realidade o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A eliminação da violência, ditam infelizmente os horríveis números, é mesmo muitas vezes real, sobretudo quando os supostos companheiros acabam por lhes tirar a vida, depois de aqueles que as deveriam proteger terem feito pouco ou nada para o impedir.
Por último, no dia 3 de dezembro regista-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o que poderá aplicar-se, do ponto de vista da saúde mental, aos condutores, ditos normais, que estacionam nos lugares reservados a pessoas a quem assiste esse direito.
No fundo, o dia 1 de abril, dia das mentiras, poderia aplicar-se com toda a propriedade à esmagadora maioria de todas estas datas, tantas vezes cheias de simbolismo, mas tantas vezes vazias de correspondência concreta.
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Os livros de autoajuda são assim designados porque ajudam quem os vende

Os livros de autoajuda vendem mais que lenços de papel em período de narizes a pingar. Por exemplo, a  australiana Rhonda Byrne já vendeu mais de um milhão de livros e, segundo se diz, tornou-se famosa por acaso. Em 2004, a sua vida era um caos. A morte do pai, vítima de leucemia, foi apenas o início de um ano complicado. Além da depressão, os problemas financeiros da produtora de televisão de Rhonda deixaram-na à beira da falência. A australiana estava até a perder autoridade sobre a sua equipa e os conflitos eram tantos que nem se falavam.
No dia em que ficou a saber que estava quase falida, a mãe telefonou-lhe a dizer que se queria suicidar. Rhonda não sabia o que fazer, mas a sua filha mais velha, Hailey, na altura com 24 anos, mudou-lhe a vida. “Quando terminei de desabafar todos os meus problemas, a minha filha apenas respondeu:”Vai correr tudo bem.” Mais uma daquelas frases que só servem de consolo, pensei eu. Então, ela saiu, voltou com um molho de fotocópias e disse-me: “lê isto”, contou Rhonda aos jornalistas.
As fotocópias eram o livro The Science of Getting Rich, de Wallace Wattles. Na obra de 1910 estava a base do livro O Segredo: a lei da atração. Wallace Wattles defendia que os pensamentos das pessoas funcionavam como ímanes, ou seja, que os bons pensamentos atraíam prosperidade e os negativos situações desagradáveis. Em menos de duas horas Rhonda leu o livro. Mais tarde pesquisou sobre o assunto e decidiu que tinha de partilhar o segredo. Partilhou tanto que acabou milionária, quase do dia para a noite.
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Mas muitos outros títulos há, chamados, e bem, de autoajuda, uma vez que autoajudam financeiramente quem os escreve e publica. Esclarecidos? Se o verdadeiro propósito fosse o de ajudar o próximo, seria muito mais lógico que fossem designados como livros de heteroajuda, ou não? No entanto, o que mais salta à vista é que se fica com a sensação de que ler um é ler todos, tal a semelhança de ingredientes e modos de cozedura. Viver a Vida a Amar, por exemplo, partilha connosco a ideia extraordinariamente “original”, iluminada, diria mesmo “genial”, de que: “a vida só pode ser vivida a amar e ser amado. Só assim é que faz sentido.”, como se pode ler no resumo do livro. Obviamente, para mim, esta foi uma “descoberta”, uma “revelação “ quase divina, uma epifania, como hoje se diz. Depois deparei-me com A Grande Magia, obra na qual, segundo o resumo, “Com uma capacidade de empatia notável e uma generosidade ímpar, a autora apresenta-nos a sua visão da misteriosa natureza da inspiração”. A princípio cheguei a pensar que fosse um manual dos incríveis truques de Houdini, mas garantiram-me que não. Jurei Mudar é outro livro de autoajuda, daqueles que fazem lembrar a passagem de ano e as eternas promessas, só promessas, na maioria dos casos, enquanto se trincam umas passas.  Já da obra, originalíssima,  Mindfulness – O Livro de Colorir é que não estava nada à  espera! Como dita o resumo, “Tudo o que precisa para relaxar está aqui: lápis e desenhos para colorir. Ansioso? Stressado? Não vale a pena. Faça uma pequena pausa.” Penso que deve dar muito jeito, sobretudo nas caixas de supermercado, na atracagem de navios ou a meio de intervenções cirúrgicas. Um verdadeiro “must” para crianças dos 8 aos 88. Dizem que é do melhor para o aumento dos índices de produtividade dos países do Sul, acrescido de um notável incremento da qualidade dos serviços prestados. Muito útil para alguns deputados virtuais no Parlamento e em Comissões de Inquérito, calculo. Pegadas na Areia é outro título sugestivo, estranhamente, imagine-se, Inspirado por uma caminhada na praia há 50 anos. Juro que fui apanhado, assim, de surpresa. Quase não chegava lá, tal o carácter codificado e enigmático do título. Diz o resumo que “Algumas histórias deixá-lo-ão de lágrimas nos olhos, já outras colocar-lhe-ão um sorriso no rosto.”, o que parece especialmente indicado a personalidades bipolares.  O Cavaleiro da Armadura Enferrujada  penso que deverá ser um manual destinado a oficinas automóveis de pintura ou a técnicos de restauro de sucata.  Já O Monge que Vendeu o seu Ferrari, confesso que me apanhou desprevenido e algo confuso, mas logo comprendi que a rede viária do Tibete e o relevo acidentado talvez não seja o mais apropriado para Ferraris ou Lamborghinis, razão que justifica naturalmente a venda do carrito. O Monge que vendeu o jipe ou o boi de carga parecer-me-ia, ainda assim, mais credível. Eu Amo-te e às Vezes a Outras Pessoas,desculpem-me a sinceridade, mas foi uma obra que nem folheei por questões de natureza moral. A sério, parece-me um convite à infidelidade,a poucas-vergonhas e maus exemplos, com toda a certeza. Arrisca-te a Viver – 114 Perguntas e 11 Exercícios que vão Mudar a tua Vida é outra recomendação, porventura para ler em velórios e serviços fúnebres. Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis fez-me pensar que as mulheres, ditas menos inteligentes, estão condenadas a relações doentias. Imagine-se, então, o resultado de uma união entre homens menos inteligentes e mulheres menos inteligentes… Que Deus nos livre!
Em suma, leia-se ou não uma biblioteca de ajuda, uma coisa é certa: apenas existe uma ajuda eficaz: a nossa. Podemos ler todos e mais um par de botas, mas se não tomarmos a decisão de enfrentar e resolver a situação, tanto emocional quanto materialmente, o resultado será um fracasso.
Ou seja, na verdade, somos nós os arquitetos do nosso destino. Logo, autoajude-se. Escreva um livro de autoajuda do tipo “A resposta está em ti”. Desconfio que não faltarão compradores, dispostos a pagar fortunas, para descobrir qual a cor do cavalo branco de Napoleão.

O mal deu em batatinhas

Em tese, ninguém pode pôr em causa as competências ou a nobre missão das comissões de Inquérito do Parlamento.
Na prática, apesar do trabalho meritório que há que justamente reconhecer a muitas dessas comissões, permanentes ou eventuais, até à data é lamentável concluir que, tudo bem somadinho, quem tem mais razões de regozijo e gratidão para com as mesmas são exatamente os que a elas têm sido “convidados” a dar explicações ao longo dos anos.
Em bom rigor, ainda não saímos de uma e já estamos a assistir a outra, exatamente com iguais motivos, o mesmo triste “argumento”, e, para não perturbar a “estabilidade política”, e outras, os mesmíssimos resultados.
Invariavelmente, em razão de o “mal dar em batatinhas”, os portugueses já se habituaram a  concluir que  a responsabilidade vai sempre parar ao início da nacionalidade.Resultado de imagem para impunidade
Não sei se alguém estaria à espera que algum dos inquiridos assumisse responsabilidades, mas absolutamente “naif” seria esperar  desculpas… por alegados “lapsos”, faltas de memória ou confusão mental…
Como dizia um dos mais distintos inquiridos, “As desculpas não se pedem, evitam-se”.
Improvável, muito ingénuo mesmo, seria esperar que o adágio fosse convertido em “As desculpas pedem-se, não se evitam”, mas isso, grita a evidência, seria o mesmo que acreditar que o Pai Natal não tarda em descer pela chaminé ou que o Inferno já desceu a graus negativos.
Só encontro equivalente inocência em esperar que Medina Carreira se esquecesse  dos seus gráficos do “Apocalipse” ou arriscasse ter como convidado alguém que com ele esboçasse, sequer timidamente, o contraditório. Fica para quando Noé voltar a separar as águas. Mas, vamos ter fé!
Para além da virose de amnésia, “agora assim de repente”…  “não me lembro”… “não sei” ou, simplesmente “não… não… e não”,  sacudindo a lama dos sapatos para anteriores inquiridos ou seguintes, aquilo a que temos assistido nas Comissões de Inquérito tem sido aritmeticamente igual à certeza de que a punição é tal qual a conhecida salvaguarda das obras cinematográficas de ficção “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.
Em caso de dúvida, nas respostas evasivas, tergiversações e desmentidos a dar ou silêncios convenientes a manter, há sempre o conselho avisado do batalhão de advogados de elite ou o emaranhado de “inglês técnico” para “esclarecer” as chamadas pessoas “lá de casa”.
Ora, se o objetivo é clarificar, nada mais clarificador e consequente!
Alguns dos inquiridos, dir-se-ia que são já quase residentes, a avaliar pela repetição das visitas às comissões. Para poupar em despesa, talvez não fosse má ideia mudar o mobiliário e desenrascar, sei lá, beliches, pantufas e pijaminhas.
Custa-me ver espatifar fortunas em água engarrafada, e na fatura da luz, para além das resmas de fotocópias “à discrição” que o erário geme.
No limite, quase apetece pedir que nos poupem a  “peças de teatro” já demasiado vistas ou a falas  de “cinema-mudo”, com os “maus-da-fita” a partirem, de arma ainda a fumegar, nos cavalos do Rolls-Royce, antes do correr das cortinas, comos “heróis” rumo ao pôr-do-sol.
Formal, e inofensivamente, reza o “protocolo”, tudo termina com um relatório descritivo dos trabalhos realizados, contendo as respetivas conclusões.
E depois? Quais as consequências práticas de tais relatórios? Quais as consequências de tais pareceres?
Para “variar”, nada mais simples. As audições revelam frequentemente preocupantes aspetos das relações entre os vários poderes, designadamente promiscuidades, manipulação de informação e distorção da realidade, correspondendo a práticas que têm vindo a acentuar-se e a contribuir de forma significativa para a degradação do regime democrático. Pelo número significativo de audições realizadas, mas também pela sua amplitude e abrangência, as denúncias apresentadas e as revelações são finalmente tidas como um património de informação inédito de inegável valor e que confere uma nova visão, mais real e objetiva, independentemente de contradições, sempre expectáveis dada a natureza antagónica dos diferentes interesses em presença, e a confrontação com os depoimentos e relatos realizados com o conjunto de objetivos iniciais que as Comissões se propõem avaliar. Em suma, o que se prova é que nada do que se prove fará prova de nada.
Só para que conste, convém saber-se que quando há maioria absoluta, ou coligação, o relatório das comissões de inquérito é do(s) partido(s) que a suportam, bem como a pessoa responsável por fazer a proposta de relatório final. Aconteceu com a maioria absoluta de José Sócrates e voltou a acontecer com Passos Coelho. Isenção garantida!!!
Há quem diga que de admirar seria se fosse o contrário, talvez por força de, alegadamente, controlar danos e branquear vigarices. Que ideia! Em todo o caso, é preferível ficarmos no plano das suposições porque, afinal,  o resultado é inconsequente e “o que interessa é participar”, “perder ou… perder é desporto”.

As pessoas “lá de casa”

No momento em que escrevo, como tantos milhões de portugueses, acabo de descobrir que sou mais uma pessoa “lá de casa”.
De resto, quer se queira, quer não, na boca de alguns comentadores “iluminados”, “explicadores” ou “tradutores”,  residentes ou visitantes, que pululam um pouco por todos os canais de televisão ou da rádio, os telespetadores ou ouvintes (supostamente  menos “iluminados” e informados que os ditos cujos) são pessoas “lá de casa”.
As especialidades são muito variadas. Temos o “comentador jornalístico-político”; o “comentador mix político&entertainer”; o “comentador político de carreira” ou  o “analista-jornalista económico”, com ou sem a bengalinha dos gráficos deste mundo, e do outro, para todos os gostos, leituras, conveniências e manipulações.Resultado de imagem para a ver televisão
Esteja no seu local de trabalho, em viagem ou a almoçar na cantina, quem acompanha a atualidade informativa ou quem tenha o “azar” de estar eventualmente sintonizado com a televisão ou a rádio, em alguns programas específicos, sujeita-se a apanhar com esses enciclopedistas do Renascimento, a papaguear “de Cátedra”, como quem explica Cibernética para Totós, ou como quem fala  de “Inglês Técnico” a inocentes criancinhas em pré-aquisição de linguagem.
A meu ver, temos em mãos um caso de clara injustiça, para não dizer de manifesta e descarada discriminação.
Então (pergunto-me eu) por que carga de água não se dirigem às pessoas “lá do café”, às pessoas “lá do restaurante” ou, ainda mais grave, às pessoas “lá das salas  de espera de hospitais e clínicas”? Também não são gente? Ah, mãe “cui nervos”! É de ir aos arames!
Na área desportiva, também merecedora de análise, o caso dos comentadores agrava-se. Basta termos, por exemplo, o senhor Freitas Lobo ao microfone, e um jogo de futebol transforma-se de imediato numa espécie de código em sinais de fumo só acessível a quem domine o  hermético “freitaslobês”.
Além disso, dada a paixão incontida e as figuras de estilo de Freitas Lobo, um jogo entre solteiros e casados ganha logo a qualidade estética e literária de um Barcelona-Real Madrid ou um workshop de bordado, com tipos de linhas, entrelinhas, linhas subidas, caseados, ponto-cruz…
Já se por acaso num desafio de futebol existir uma grande penalidade, mas os ilustrados comentadores decidirem que não é, não é.
E então se for acompanhado da catrefada de fotocópias e fotografias de todos os planos, e outros, do comentador picareta-falante Pedro Guerra, grande glória de futebol do Damaiense, não há quem prove o contrário. Nem que Deus desça à Terra. Até porque Deus não jogou futebol e, como diz Pedro Guerra, é preciso ter jogado futebol para saber de futebol. José Mourinho, como se sabe nunca jogou futebol, logo está a milhas dos doutos conhecimentos futebolísticos de Pedro Guerra. Parece-me absolutamente lógico.
Sobre lições de anatomia e toda a sorte de lesões e mazelas também não faltam comentadores especialistas de fazer inveja a ortopedistas, fisioterapeutas e cirurgiões na área da medicina desportiva.
No fundo, ser pessoa “lá de casa” é arriscar-se a ser presenteado com gratuitos atestados de ignorância, esses sim, passados por alguns (e não são poucos) pseudo-intelectuais ou pseudo-especialistas.
Poderá, contudo, dar-se o caso de estarem a fazer publicidade manhosa de uma loja “online” de artigos para o lar que dá pelo nome de “Pessoas lá de casa”. Está na net. A sério.
O mais irónico é que ainda lhes pagam, e ao que se sabe, jeitosíssimas quantias, na ordem de milhares de euros, quando muitas pessoas “lá de casa” ou de “lá de onde o diabo perdeu as botas” pagariam dobros pela divina graça de não os ouvir.

Os 100 dias de Marcelo

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Passos Coelho disse que era de evitar eleger um Presidente “cata-vento”, e outros, talvez por dor de cotovelo da energia Duracel (passe a publicidade) de Marcelo, chamaram-no “hiperativo”. Enfim, invejas de quem gostaria de dormir apenas 4 ou 5 horas por noite a ler 3 ou 4 calhamaços.
Não que a alegada “hiperatividade” possa ser desconsiderada. Veja-se quantos pais têm orgulho nos filhos “hiperativos”, incentivando-os mesmo a serem-no todo o santo dia. De manhã, escola; à tarde, explicações e muay thai; à noite, e madrugada fora,  o extenuante face. Ainda assim, sempre é melhor ser “hiperativo” que ser um pastelão. Ainda assim, insisto, mais vale atribuir comendas no 10 de junho a cidadãos anónimos, exemplo de heroísmo e verticalidade, do que a figuras públicas de reputação algo suspeita, para não dizer muito pouco recomendável. Ou seja, Marcelo recuperou o prestígio e a imagem da função presidencial, repondo os níveis de popularidade que a instituição Presidência da República historicamente tinha.
Difícil, difícil, imagino, será escolher jornalistas que se adaptem a um PR “hiperativo”, o que me leva a pensar que talvez não seja má ideia escolher os mais “hiperativos”. Não é por nada. É só porque calculo que muitos dos que o acompanham na “lufa-lufa” estejam já a precisar de sopas e descanso. Presumo que seja menos estafante acompanhar um tanzaniano  numa Maratona no Quilimanjaro, debaixo de 50 graus centígrados…
Durante o período de 100 dias, o chefe de Estado teve nada mais nada menos do que 250 iniciativas, o que perfaz uma média de 2,5 iniciativas diárias para estar, tal como prometeu, “o mais próximo possível das pessoas”, e apenas não esteve em antena 18 dias. Entretanto, já fez sete viagens ao estrangeiro e já tem em preparação mais três, um périplo por Cuba, México e Colômbia, previsto para Outubro.
O que é facto é que o estilo do Presidente pegou de estaca e a sua popularidade não para de subir nas sondagens. Nada surpreendente é a sua disponibilidade para selfies e conversas, viajando de Norte a Sul e cumprimentando, desde o mais modesto funcionário a membros do corpo diplomático, confirmando-se a sua propensão para os afetos, que não para ódios de estimação e ambientes de crispação de cortar à faca de outros tempos e protagonistas.
Na deslocação ao Alentejo que designou de “Portugal Próximo”, Marcelo explicou: “Quando de vez em quando me perguntam – e a comunicação social gosta muito de perguntar – se não há risco de aparecer muitas vezes, eu pergunto: como é que é possível estar próximo, estando distante? Ou se está próximo, ou não se está próximo”. Nada mais esclarecido e esclarecedor. Ossos do ofício de antigo professor. Goste-se ou não, o novo Presidente distingue-se nos programas, no registo ativo e de proximidade com os cidadãos, claramente a anos-luz do seu antecedente: austero, com falta de pilhas, e mais propenso a pantufas e robezinho.
A primeira visita de Marcelo à Região Autónoma da Madeira está marcada para o início de julho, coincidindo com o Dia da Madeira, e estão previstas para este ano novas edições do “Portugal Próximo” em Trás-os-Montes, em julho, e na Beira Interior, mais tarde. Há já quem diga que Cristo pode ter descido à Terra, mas Marcelo está em todo o lado. Porém, apesar de inovar no estilo e desdramatizar o clima político, Marcelo está atento e  não deixou de lançar advertências sobre a evolução económica e até sobre possíveis efeitos das eleições autárquicas. A dúvida que fica é se a prática de falar sobre tudo, e todos os dias, será positiva, podendo correr-se, segundo alguns analistas,  o risco de banalizar demasiado o poder de intervenção do Presidente. Em todo o caso, apoie-se o caso raro e rápido de consensualidade na política nacional ou, inversamente, não se veja a hora do seu fim, há que tomar como positiva a pedagogia da sua intervenção política e cívica, a par da sua proximidade com o cidadão comum e a dessacralização da função presidencial.  Tem plena consciência de que é o primeiro catedrático de Direita eleito por sufrágio direto e universal, o que o obriga a dar o exemplo de um Estado de Direito. Em face do exposto, não nos restam dúvidas de que certamente o fará.

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